It's a Sin: genuíno e devastador registro da Aids nos anos 80


Ritchie em Londres: baladas e sexo sem sexual


Acho que poucas vezes eu vi uma série que tenha me tocado tão profundamente. It's a Sin, exclusiva da HBO Max, se passa na década de 80 e aborda, de uma maneira avassaladoramente real, o início da Aids. Digo isso porque vivi intensamente o período, perdi amigos, e a minissérie inglesa entrega detalhadamente todos os dramas de quem vivenciou a epidemia do vírus de perto.


O primeiro episódio, que se passa em 1981, apresenta os três protagonistas homossexuais. Ritchie (Olly Alexander) sai de uma ilha britânica para morar em Londres. Também chega à capital inglesa o certinho galês Colin (Callum Scott Howells). E há Roscoe (Omari Douglas), que fugiu de sua família muçulmana.


Ritchie quer ser ator e transa alucinadamente. Roscoe trabalha num bar e também é adepto do sexo sem compromisso. O tímido e inseguro Colin começa a vida profissional numa alfaiataria de luxo e nunca encontrou um parceiro para chamar de seu. Os três vão viver sob o mesmo teto, um grande apartamento que abriga também uma amiga simpatizante e muitas festas de arromba.


São apenas cinco episódios e, com o avançar do tempo (a história chega até 1991), acompanha-se o desenrolar das informações sobre a Aids e suas devastadoras consequências.


O início é o da negação (dizia-se que era um câncer que só matava gays americanos), mas, conforme a doença e a morte vão chegando mais perto dos personagens, o medo e as precauções se tornam presentes.


O criador é Russell T. Davies, nascido no País de Gales em 1963. Também autor de Queer as Folk (outra série maravilhosa sobre o universo gay), ele escreveu It's a Sin baseado em experiências pessoais (tinha 18 anos em 1981), o que dá à minissérie uma autenticidade ímpar.


O isolamento dos doentes, a falta de investimento do governo em pesquisas para a cura, as perdas de pessoas próximas, a partida dos aidéticos (termo usado à época) para suas cidades natais... Tudo é enfocado num turbilhão de emoções verdadeiras em meio a situações de humor, algo que não é dispensado pelo roteirista, sobretudo nos capítulos iniciais.


O leque de personagens também é outro trunfo. Há desde os gays mais, digamos, safadinhos, até comportados casais homossexuais e um político que bajula a conservadora primeira-ministra Margaret Tatcher, mas tem um amante a tiracolo. Esses personagens são defendidos pelos ilustres Stephen Fry e Neil Patrick Harris, ambos gays assumidos e excelentes em suas participações.


E há que se destacar também, no derradeiro episódio, a excepcional atuação de Keeley Hawes, que faz a mãe de Ritchie, além da coruscante trilha sonora, com Joy Division, Soft Cell, Pet Shop Boys, Blondie, Bronskie Beat, R.E.M... Os anos 80 rondaram minhas memórias e emoções eu revivi.



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