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Mães Paralelas: o Almodóvar do melodrama e político


Penélope Cruz e sua bebê: indicada ao Oscar


Eu costumo dizer que até um Woody Allen menor é um bom Woody Allen. O mesmo vale para Pedro Almodóvar. São meus dois diretores vivos preferidos e que nunca erraram feio. Ops! Almodóvar deu, sim, uma escorregada em Os Amantes Passageiros, mas isso é passado. O espanhol se reergueu maravilhosamente bem em Dor e Glória e, agora, volta ao universo feminino em Mães Paralelas, disponível na Netflix.


O filme começa e termina político, uma questão que nunca esteve presente de forma tão explícita em seus trabalhos. O grande miolo da trama é um delicioso melodrama, que Almodóvar sabe tecer como poucos.


Penélope Cruz, indicada ao Oscar 2022, interpreta Janis, uma fotógrafa de Madri, que faz um trabalho com o antropólogo forense Arturo (Israel Elejalde). Papo vai, papo vem... e ela acaba pedindo a ajuda dele para encontrar os restos mortais de seu bisavô, que foi fuzilado durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), no "pueblo" onde morava. Os dois terminam na cama e ela fica grávida.


Na maternidade, Janis conhece a adolescente Ana (Milena Smit). Elas dão à luz na mesma hora e nascem duas bebês. Janis e Ana ficam amigas, prometem se reencontrar e cada uma segue seu rumo. Vou parar por aqui.


A mãe de Ana (papel de Aitana Sánchez-Gijón), uma atriz que começou tardiamente na carreira, diz, a certa altura, que é burguesa, mas que "todos os artistas são de esquerda". Almodóvar é de esquerda. Desde o início da carreira, no início dos anos 80, fazia filmes transgressores, como Maus Hábitos e O que Fiz Eu para Merecer Isto?


O melodrama virou seu forte no decorrer da brilhante carreira. Desta vez, a maternidade está no centro das atenções: uma mulher de 40 anos querendo ter um filho versus uma adolescente que engravidou à força. Filhas renegadas, filhas amadas, mães distantes que se aproximam das filhas. Confesso que, por vezes, o roteiro me pareceu previsível. Dá para adivinhar o que vem pela frente, sem as surpresas, por exemplo, de Tudo sobre Minha Mãe ou A Pele que Habito.


Almodóvar deixou a emoção para o lado político da trama. Fez seu grito de revolta contra uma guerra que matou milhares de pessoas e que teve os nacionalistas recebendo reforços da Alemanha nazista e da Itália fascista. O golpe contou com o apoio de Francisco Franco, que ficou no poder até 1975 e de quem todo espanhol de bom senso guarda rancor. Mães Paralelas é a resposta artística de Almodóvar para as atrocidades cometidas pelo ditador.





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